Você acredita em Deus? Acredita em alguma força maior? Diz que sim. Diz que acredita. E reza, e ora, e implora. Pede por mim, porque minhas preces já não adiantam mais. É a paisagem do sertão que não muda, é o fim que parece cada vez mais próximo. Reza, ora, implora. Pede por mim. Porque o meu pedido já não faz mais efeito. É tanta angústia, é tanta agonia… Que virou falta de fé. É isso! Eu sou um imenso vazio: eu sou a falta de fé. Mas hoje eu choro, diante de palavras, diante de letras… Eu só não choro diante dos números porque nunca tive fé neles. Eu rezo, eu oro, eu imploro pra ter minha fé de volta. Minhas palavras de volta. Minhas letras… quero todas de volta. Culpo-me por não ter acreditado antes, por ter julgado-me sabichona. Sabichona de nada é isso que eu sou. Pensava que rezar, orar e implorar era coisa de gente fraca. E eu? Eu era forte. Eu não precisava dessas crendices. Era toda, toda achando que meu peito era de ferro e minha cabeça de ouro. Mal sabia eu que o ferro podia ser corroído e o ouro podia virar pó. E, enquanto eu achava que estava me lapidando, ia me consumindo. Cada vez mais e mais e mais. E minha fé ficava pra trás. Quem precisa de fé? A paisagem do sertão pode ser alterada com a ciência e o fim também adiado pela ciência. Pois é… Mal sabia eu, que a natureza sobrepõe tudo isso e, o que vem da natureza que é capaz de mudar ou amenizar as consequências? A fé. Em algo Divino, em algo Cristão ou em algo Pagão. A fé em algo de fora que cultuava a fé em algo de dentro. Talvez o externo nem importe tanto agora, mas a minha fé de dentro… Foi-se. Feito o pó de ouro: tão leve e ao mesmo tempo preciosa. Espalhou-se na imensidão e no vazio que se tornou meu ser. E agora? Eu peço à ti, que acredita, que tem medo e coragem pra vencê-lo: reza, ora e implora por mim. Pra que eu volte à acreditar. Pra que, dentro do meu infinito, talvez eu volte a me achar.
