Arquivos | junho, 2011

O protagonista

15 jun

É sempre difícil começar. Mas quando esse começo desencadeava o fim de um número enorme de mágoas e frustrações, ele se tornava mais fácil. O escrever era a chave para a porta da casa dos seus devaneios. Por isso, mesmo que por muitas vezes ausente, o antigo dono sempre voltava à velha casa. Lá encontrava seus sonhos quase intactos, seguros, aguardando pelo começo de uma vida. Uma vida que pudesse ser chamada de real. Mas, enquanto essa realidade se encontrava bem distante do nosso protagonista, a sua maneira de não se angustiar era escrevendo. Sobre a ausência que insistia em lhe perturbar, sobre o amor que parecia nunca lhe corresponder, sobre a inquietação da alma nas noites mais frias e tristes. Escrevia sobre tudo, mas não sempre (afinal, assim seria um exagero). Quase sempre. Nesse ritmo era pautada a sua vida: sem muitas pertubações externas, mas com incontáveis abismos mirabolantes dentro de si mesmo. O nosso protagonista era vazio… E como era. Só era viável reviver emoções na hora de colocar a poesia em prática. De resto? Silêncio. Diegético, simples e interno. Com a calma que lhe acompanhava fazia planos solitários, sem muitas ambições. Já não esperava mais surpresas. Sabia que o Destino não existia, em Deus nunca acreditou, sempre teve medos de espíritos, pensamento positivo lhe agradava, mas tinha muita preguiça… E a fé em si mesmo já estava começando a falhar. Foi quando, vivendo, sem saber ao certo se era sonho ou verdade, o desejo veio, a paixão batera na porta e o amor logo se entregou para presente. Já não sentia mais vontade de escrever, porque os sonhos, que antes eram escritos, agora estavam sendo vividos. Um por um à flor da pele. Era o fogo, a carícia, o afeto, o compromisso. Ao abrir os olhos, o nosso, antes vazio protagonista, se inundava de emoções, transbordava e chorava e chorava. A vida, finalmente, veio lhe bater à porta. Ele estava com a vida. Pela primeira vez ele era a vida.

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